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13.07.17

Tempo de lutas e recomeços

Conhecido como período interbíblico, época do chamado “Silêncio Profético” foi decisiva para o advento de Cristo

MUITOS LEITORES DA BÍBLIA têm certa curiosidade ao encontrar algumas páginas em branco entre o fi m do Antigo e o início do Novo Testamento. Além de recurso gráfico para dar um “respiro” na leitura, marcando de maneira clara a passagem entre as duas partes da Palavra de Deus, aquele espaço simboliza o chamado período interbíblico, intervalo histórico de cerca de 400 anos entre o fi m das revelações aos profetas veterotestamentários – o último com revelações registradas nas Escrituras é Malaquias – e o advento de Cristo. Justamente por isso, é um período sobre o qual há mais conhecimento nos livros de história do que na própria Bíblia Sagrada.

Conhecer aquele período, no entanto, é fundamental para entender o mundo, a religiosidade e o contexto sociocultural no qual Jesus nasceu. Foi uma época de turbulência política, ascensão de grandes impérios, opressão religiosa e confusão espiritual. Os judeus já aguardavam o Messias libertador, cuja vinda fora antecipada por seus profetas ao longo dos séculos. Contudo, a dominação helenística e, mais tarde, romana, lançou Israel em um terrível panorama de perda de identidade espiritual e, por que não dizer, esperança. Ao silêncio profético juntavam-se as práticas pagãs que, pouco a pouco, se imiscuíam no culto judaico.

O futuro de Israel como nação e baluarte da revelação divina ao mundo estava, pois, ameaçado. Para entender melhor o que foi o período interbíblico, é preciso fazer uma digressão histórica até à ascensão do Império Persa, pelas mãos de Ciro, o Grande, que governou com mão de ferro entre 558 a.C. e 530 a.C. À época, as forças persas conquistaram boa parte do mundo conhecido, inclusive a Síria e a Babilônia, então em franca decadência. Os judeus, cativos dos babilônicos, foram libertos com o beneplácito do monarca persa, conforme registro de 2Crônicas 36 e Esdras 1. Ciro foi sucedido por Assuero (também chamado Xerxes), protagonista da bela história da rainha Ester. Com sua tolerância para com os israelitas, o povo de Deus se fortaleceu, até que novo soberano, Artaxerxes (465 a.C. – 425 a.C.), permitiu que os judeus voltassem para sua nação, embora muitos tenham preferido ficar na Babilônia ou seguir para o Egito.

HELENIZAÇÃO

A certa euforia dos judeus com a retomada de suas tradições, após sucessivas levas de retorno à Terra Prometida (por meio de Zorobabel, Esdras e, por fi m, Neemias), cresceu com a reconstrução de Jerusalém e do templo, reerguido em 516 a.C. Por meio da leitura do livro da Lei, descoberto por Esdras e Neemias nos escombros da cidade santa, houve um despertamento espiritual na nação. Muitos, em Israel, criam que a chegada do Messias era iminente. Contudo, o fim da dominação persa, simpática a Israel, deu uma nova guinada na história. Um novo e grande conquistador, Alexandre, o Grande, se levantaria entre os gregos em 333 a.C. Diante de suas forças, reinos poderosos caíram e o processo de helenização do mundo teve seu início.

“A história do Antigo Testamento se encerrou com o cativeiro que a Assíria impôs ao Reino do Norte, Israel, e com o subsequente cativeiro babilônico do Reino do Sul, Judá” explica o historiador americano Robert H.Gundry, especialista em Bíblia com PhD pela Universidade de Manchester, na Inglaterra. “Os quatro séculos entre o final da história do Antigo Testamento e os primórdios do Novo Testamento compreendem o período intertestamentário, ou os ‘anos do silêncio’. Durante esse hiato é que Alexandre se tornou senhor do antigo Oriente Médio, ao infligir sucessivas derrotas aos persas.”

Após a conquista, a cultura grega, também chamada de helenismo, se expandiu pelo mundo conhecido. Além do avanço da ciência e da uniformização do idioma, a cosmovisão grega, com seu panteão de deuses, começou a influenciar os povos dominados. Educado por ninguém menos que o sábio Aristóteles, Alexandre assumiu o poder aos 20 anos de idade. Com sua morte precoce, em 323 a.C., seu Império foi dividido em quatro partes – duas delas, a dos ptolomeus e a dos selêucidas, abrangiam a região hoje ocupada pelo Egito e pela Síria, com as terras de Israel no meio. Espremidos entre os dois gigantes, os judeus experimentariam anos difíceis.

A Judeia, reduzida à condição de província, ficou sob o comando de Antígono, um dos generais de Alexandre que controlava parte da Ásia Menor. Logo a seguir, caiu sob o controle de outro general, Ptolomeu I, que dominara o Egito. Embora tenha subjugado Jerusalém, ele não massacrou os judeus. Ao contrário – até consentiu que muitos deles se radicassem em Alexandria, capital do reino ptolemaico, onde uma importante sinagoga foi erguida como centro de cultura e fé judaicas. Foi no governo de Ptolomeu II que os judeus de Alexandria iniciaram a tradução de sua Lei escrita, o Pentateuco, para o grego. Essa foi a origem da Septuaginta, uma das mais importantes traduções da Bíblia em toda a história.

REVOLTA DOS MACABEUS

A paz entre os judeus, contudo, nunca foi duradoura ao longo de sua história, desde os tempos de Abraão. Depois de 120 anos sob o domínio dos governantes ptolomeus, Antíoco III, da Síria, conquistou a Palestina em 198 a.C. Aquela era a chamada dinastia dos selêucidas, em honra ao seu fundador, Seleuco I, que assumiu após o colapso do reino de Alexandre. A princípio, os selêucidas permitiram que os sacerdotes hebreus continuassem exercendo seus ofícios e certa infl uência sobre os hebreus.

Tudo iria mudar, contudo, quando os helenistas, liderados por Antíoco Epifânio IV, entraram em conflito com os judeus mais ortodoxos. Ele indicou um sacerdote fantoche, Jasom, comprometido com o culto à fi gura de Hércules, fato que enfureceu os judeus. Dois anos depois, um rebelde, chamado Menaém (cujo nome grego era Menelau), tomou seu cargo, e os partidários de ambos entraram em conflito. Aquela foi a deixa que Antíoco IV esperava para marchar sobre Jerusalém. Além de queimar a cidade e destruir centenas de casas, o rei pagão introduziu uma porca – animal imundo para os judeus – sobre o altar do holocausto, no templo sagrado. “Foi o atroz governo de Antíoco IV que gerou a revolta dos macabeus”, escreveu o falecido pastor batista Enéas Tognini em seu livro O período interbíblico.

Revoltados, os judeus da facção mais radical partiram para a luta armada. O levante começou com o assassinato de um oficial sírio que presidia uma cerimônia pagã nos arredores de Jerusalém, por volta de 166 a.C. O mentor do crime era um velho sacerdote, Matatias, escalado pelos conquistadores para dar um “verniz” judaico ao rito. Matatias fugiu para a região montanhosa da Judeia e, com a ajuda de seus fi – lhos e um crescente número de seguidores, empreendeu uma luta de guerrilha contra os sírios. Com a morte do sacerdote, um de seus fi lhos, Judas, apelidado “o Macabeu”, assumiu o comando da revolta e, por volta de 164 a.C., conquistou um feito heróico: a retomada de Jerusalém. Judas Macabeu empreendeu uma verdadeira reforma religiosa, purificando o templo e reinstituindo a prática dos sacrifícios, segundo a Lei mosaica. Com a morte do odiado Antíoco da Síria, as lutas entre israelitas e selêucidas prosseguiram por muitos anos, agora sob o comando de Aristóbulo I, o primeiro da linhagem dos macabeus a assumir o título de rei dos judeus.

Àquela altura, um novo e irresistível império já avançava sobre a Europa, o norte da África e o Oriente Médio: os romanos. Enfraquecidos por disputas internas e pela desgastante guerra contra os sírios, os judeus não foram páreo para as legiões do general Pompeu, que marchou sobre a Palestina e chegou a Jerusalém em 63 a.C. Duro e implacável com seus oponentes, Pompeu venceu Aristóbulo II, mas foi benevolente em relação à crença dos judeus, não tocando em seu templo e permitindo que sacerdotes locais mantivessem os ofícios religiosos. Era a política da Pax romana, sistema pelo qual os dominadores estabeleciam o governo político das províncias, determinavam os tributos a serem recolhidos e preservavam, o quanto possível, a cultura local, para inibir as desgastantes sublevações.

Herodes, filho de Antipater, fora nomeado governador da Judeia. Ele era nada mais que um representante dos interesses de Roma, e seu reinado foi um desastre para os judeus. Além de práticas idólatras e corrupção, Herodes estimulou o sincretismo entre ritos judaicos e crenças pagãs, levando muitos judeus a fugirem de suas terras ou unirem-se em torno de facções extremistas, como os zelotes. Foi sob a tirania de Herodes que um certo menino nasceria em Belém, por volta de 6 ou 4 a.C., atraindo não apenas magos do Oriente como, até mesmo, anjos do céu, que vieram cantar em sua honra. Era o fim do período interbíblico e o nascimento do tempo da graça.