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05.10.17

Muito além da religião

Movimento iniciado no século 16 marcaria profundamente as sociedades nas quais se consolidou

Os efeitos da Reforma Protestante excederam, e muito, a esfera meramente religiosa. O movimento, que eclodiu no início do século 16, logo teria grandes desdobramentos em áreas diversas das sociedades nas quais se consolidou – e foi na política, na educação, na economia e na literatura que sua influência foi mais marcante.

POLÍTICA
As posições doutrinárias da Reforma contribuíram para a consolidação da democracia no Ocidente. O conceito do sacerdócio de todos os fiéis anulou a distinção radical entre clero e leigos. A Igreja preconizada por Lutero não era mais uma instituição hierárquica, e sim, uma comunidade de pessoas crentes (communio sanctorum). A noção calvinista da Igreja como comunidade contribuiu para o surgimento da ideia do contrato social. Outro legado político da Reforma foi a defesa da consciência individual. Quando se intensificou a repressão contra os protestantes em alguns países, na esteira da Inquisição, surgiram os huguenotes franceses, com vigorosa defesa de constitucionalismo que limitava o poder do rei e defendia a consciência individual. A reivindicação protestante contra a tirania contribuíram para as revoluções americana e francesa do século 18.

LITERATURA
Centrado na leitura e na livre interpretação das Escrituras, a Reforma foi um movimento que enfatizou a pregação, o ensino e a publicação de livros. O interesse dos reformadores pela Bíblia, que já era nutrido por alguns humanistas antes deles, como Erasmo de Roterdã, levou a uma grande ênfase na tradução das Escrituras para as diferentes línguas europeias. Algumas dessas traduções se tornaram verdadeiros monumentos literários de certos idiomas, como a Bíblia alemã, de Martinho Lutero. No caso do idioma português, a tradução de João Ferreira de Almeida – pastor lusitano a serviço da Igreja Reformada holandesa – foi marco importante para a consolidação da língua de Camões. Os protestantes souberam utilizar com grande eficiência um avanço tecnológico que havia surgido recentemente, a imprensa de tipos móveis, inventada por Gutenberg. O novo movimento passou a girar em torno da Bíblia e dos livros, criando uma cultura literária até então inédita na história do Ocidente. As literaturas nacionais foram fortemente influenciadas pelos reformadores. Dois grandes literatos protestantes foram o dramaturgo William Shakespeare e o poeta John Milton, ambos britânicos.

ECONOMIA
Com seu novo entendimento de vocação, os reformadores solaparam o dualismo medieval de trabalho sagrado e secular. Na velha ordem, somente os religiosos eram tidos como vocacionados. Os líderes protestantes passaram a defender que todo trabalho é uma vocação divina, o que resultou na valorização das atividades comuns e gerou uma nova ética do trabalho. Além disso, a ênfase da Reforma na responsabilidade, disciplina e frugalidade possibilitou a prosperidade das famílias e das comunidades. Segundo o sociólogo alemão Max Weber, autor do clássico A ética protestante e o espírito do capitalismo, os calvinistas europeus dos séculos 17 a 19 consideravam sua prosperidade material como uma evidência de que estavam entre os eleitos de Deus. No âmbito da economia, tanto Lutero quanto Calvino atacaram vigorosamente o capitalismo por sua cobiça, reivindicando o controle estatal sobre o mesmo como forma de proteger os pobres e os trabalhadores. Além disso, os reformadores contribuíram para o desenvolvimento da assistência e previdência social moderna. Calvino, inclusive, se notabilizou por suas gestões junto aos órgãos dirigentes de Genebra em defesa da justiça econômica e social e contra a cobrança de juros extorsivos e a especulação em torno do preço dos alimentos. A médio prazo, a Reforma Protestante influiria o desenvolvimento do mercantilismo.

EDUCAÇÃO
O interesse significativo pela educação foi uma marca do movimento reformista. A importância de ler e estudar a Bíblia desde a infância exigia que as pessoas fossem alfabetizadas e cultivassem a vida intelectual. Com efeito, o sistema educacional foi estendido a um segmento mais amplo das populações europeias. Algumas nações protestantes, como a Alemanha e a Escócia, foram as primeiras a terem educação universal. O mesmo ocorreu na Nova Inglaterra puritana, e na América do Norte, o primeiro lugar em que a educação se tornou obrigatória, universal e gratuita, ainda em meados do século 17. João Amós Comenius (1592-1670), um bispo da Igreja Morávia, é considerado o pai da educação moderna. Com o passar do tempo, os protestantes criaram as suas próprias universidades, como as de Genebra, Leyden, Harvard, Yale e Princeton.