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25.10.17

GRANDE NUVEM DE TESTEMUNHAS 

Para além de  Lutero e Calvino, movimento que originou a Reforma Protestante teve muitos outros protagonistas 

Por Magno Paganelli  

Uma obra importante (e desconhecida) sobre o início da Igreja, Vozes do Cristianismo primitivo, tem o seguinte subtítulo: “O Cristianismo como movimento, mas sem uniformidade nas perspectivas entre a instituição e as pessoas comuns”. Assim como a fé cristã se organizou pela interação de comunidades e pessoas comuns, ocorreu mais tarde quando eclodiu na Europa a convergência de movimentos menores que ficou conhecida, na História, como Reforma Protestante. 

Muitos cristãos acreditam que o movimento reformista ocorreu da noite para o dia, a partir de um ataque de conservadorismo inspirado por Deus sobre um monge corajoso, o que desencadeou a santificação de todos os verdadeiros cristãos até o dia de hoje. Mas, o que conhecemos por Reforma tem raízes bastante antigas em relação ao ano de 1517, quando se acredita que Martinho Lutero fixou a sua Disputatio1, ou 95 teses, na porta do Castelo de Wittenberg, na Alemanha. O papel de Lutero não foi pequeno e seu gesto coroou os esforços feitos havia séculos por outros religiosos – como, também, atendeu às expectativas de setores da sociedade, não somente os religiosos, mas econômicos e sociais. Lutero esteve envolvido na chamada Guerra dos Camponeses (1525), tendo sido mediador entre o clero, os proprietários de terra e os trabalhadores do campo. 

O início do movimento foi anterior ao século 16 de Lutero. Na Igreja do Oriente, a ideia de isolamento como protesto remonta ao cenobita Pacômio (286-346 d.C.) e Antônio (ou Antão, 250-356), no Egito, o movimento dos pais (ou padres) do deserto. No Ocidente, o nome a ser lembrado é Bento de Núrsia (480-542), o criador das Regras beneditinas. Porém, foi o século 9, com a maior decadência do papado, que as sementes da renovação brotaram na vida monástica, tal como vista em Cluny, a partir de 910, na França, no mosteiro que leva o mesmo nome e que influenciou movimentos semelhantes na Inglaterra e na Itália. Fundado por Guilherme, o Pio, Cluny passou a ser modelo para outros mosteiros, liderando um movimento de reforma monástica por seu exemplo e influência – atuando, por exemplo, contra problemas da Igreja, tais quais a simonia (compra de cargos no clero), o nicolaísmo,2 a quebra do celibato – por casamento ou concubinato – e a prestação de contas ao papa, e não ao bispo local, já que este era aliado ao poder temporal regional, modelo típico do feudalismo. 

Quando estourou a Era das Cruzadas, o clero moralmente deficiente e o aparente “empenho” ou “zelo” espiritual dos cavaleiros do papa levaram ao surgimento de organizações cristãs de insatisfeitos, as reformas monásticas e as ordens mendicantes dos frades (os “irmãos”), que viviam sob o modelo proposto por Jesus Cristo em Mateus 19.21: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me.” 

“CÃES DE CAÇA” 

Daqueles grupos, merecem destaque os cistercienses, de natureza monástica, iniciado em Citeaux, na França, por Bernardo de Clairvaux (1090-1153), seu membro mais ilustre. Teve governo centralizado, como Cluny, agregando nada menos que 530 mosteiros até fins do século 12. Esse movimento corrigia rigorosamente a falta de disciplina entre os monges e adotava a extrema simplicidade, atraindo, assim, os camponeses. 

Os franciscanos, de orientação mendicante, remontam a Francisco de Assis (1182-1226), na Itália. Eram religiosos que faziam votos de pobreza, viviam entre o povo (diferentemente dos monges), pregavam e promoviam as missões em regiões da Espanha, Egito, Constantinopla, Pérsia, Índia e China. Os franciscanos construíram hospitais durante o tenebroso período das pragas, como a peste negra, na Europa. Apelavam para as necessidades do coração e usavam o slogan “é dando que se recebe; é perdoando que somos perdoados; e é morrendo que despertamos para a vida eterna”. 

Outro grupo destacado eram os dominicanos. Eles integravam uma ordem mendicante fundada por Domingos, ou Dominique (1170-1121), um nobre espanhol. Suas últimas palavras refletem a filosofia geral do movimento: “Mostrar a caridade, manter a humildade, aceitar a pobreza”. O ascetismo e a simplicidade eram a base de sua prática, e usavam a argumentação ao apelar para a mente e a persuasão intelectual, a fim de convencer os considerados hereges. De tão diligentes, ficaram conhecidos como “os cães de caça do Senhor”, por sua persistência e capacidade em localizar focos de heresias e ignorância. Os dominicanos ganharam posição estratégica na Universidade de Oxford (1227) quando Roger Bacon, professor local, juntou-se à ordem. Em 1220, o papa entregou a eles a supervisão da Inquisição, que julgava secretamente todos os considerados hereges – sendo que, a partir de 1252, os dominicanos foram autorizados a torturá-los para, segundo diziam, “convertê-los”. 

Todavia, o panorama social e religioso que propiciou a Reforma não se deu apenas entre os estratos elevados da Igreja. Houve movimentos leigos, com destaque para dois, ambos na França. O primeiro foi o dos albigenses, ou cátaros. Surgidos em Albi, consideravam-se “puros” e tentavam seguir os ensinos do Novo Testamento. Tinham ideias dualistas e ascéticas, como os maniqueístas. A salvação, para os albigenses, é a libertação da luz divina sobre a alma e a libertação do corpo. Assim, condenavam as guerras, o casamento e até o ato de comer. Levavam uma vida de pobreza, celibato e vegetarianismo. 

Já os valdenses, seguidores de Pedro Valdo, de Lion, tentaram reformar a Igreja por dentro. Eles foram acolhidos pelo papa Luciano, embora proibidos de pregar. Em 1184, o grupo foi excomungado e sofreu forte perseguição. Para os valdenses, entre os principais “pecados” estavam a pregação bíblica e a rejeição da intermediação do clero. Os valdenses iam além, negando a existência do purgatório e o valor das orações aos santos. Causaram muito barulho e foram acusados de rejeitar todos os aspectos físicos da Igreja, como templos, cemitérios e altares, sem falar da condenação a elementos como água benta, liturgias, romarias e indulgências. Sobre o caminho para a salvação, doutrina básica do Cristianismo, os discípulos de Valdo focavam mais o sofrimento e a pobreza do que a graça de Deus. Luigi Francescon, fundador da Congregação Cristã no Brasil – uma gigante pentecostal surgida em 1910 -, fez parte de uma Igreja valdense na Itália, país que ainda hoje conserva comunidades ligadas àquele movimento, assim como o Uruguai. 

 FÉ E FOGUEIRA 

O período escolástico e o surgimento das universidades no Ocidente viram o surgimento de nomes como Anselmo de Cantuária (1033- 1109), que desenvolveu o princípio da “fé que procura conhecer”; Abelardo (1079-1142), que disse que “nada pode ser crido sem ser entendido”; além do “doutor angélico”, Tomás de Aquino (1224-1274). Entre o povo leigo houve o movimento místico, de reação contra a decadência da Igreja. Para seus adeptos, o homem não necessitava da mediação de um sacerdote para chegar-se a Deus. Neste ponto, anteciparam um dos postulados da Reforma, embora valorizassem mais a experiência interior subjetiva do que a Bíblia. 

Nos dois séculos anteriores à Reforma Protestante, os pré-reformadores fizeram um trabalho essencial. John Wycliffe (1328-1384) é um desses vultos. Graduado em Oxford, ele considerava que o papado bíblico deveria consistir numa vida de pobreza e humildade dedicada ao serviço da Igreja. Wycliffe pregou contra o suposto perdão concedido pela Igreja, por meio das indulgências, as peregrinações e a adoração a imagens. Foi considerado tão incômodo ao clero que, depois de sua morte, seus restos mortais foram queimados como forma de punição. 

John Huss (1369-1415) formou-se dez anos após a morte de Wycliffe. Ácido em suas críticas, colocou nas paredes da universidade onde lecionava pinturas retratando a figura de Cristo andando a pé, com o papa garbosamente montado a cavalo. Outros desenhos irônicos mostravam Jesus lavando os pés dos discípulos, enquanto os do pontífice eram beijados. Huss pregou contra as indulgências que Roma vendia para financiar sua guerra contra Nápoles. Ele teve o fim reservado a muitos mártires da fé cristã – queimado na fogueira da Inquisição, com o requinte de uma coroa adornada com figuras de diabinhos. 

Monge dominicano que atacava o luxo e a avareza dos poderosos como contradição à fé cristã, Girolamo (ou Jerônimo) Savonarola viveu no século 15. Sua mensagem era de enfrentamento aos governantes e poderosos e ficou conhecido por sua devoção, até ser enforcado e queimado. E, se foi na Alemanha que Lutero fez o movimento eclodir para o mundo, no dia 31 de outubro de 1517, a Suíça também teve a sua Reforma. E ela foi protagonizada por nomes como Ulrico Zwínglio (1484-1531). Foi ele quem expulsou os vendedores de indulgências dos seus territórios, desaconselhou os soldados a saírem da cidade para a guerra e opôs-se à autoridade papal. Zwínglio admirava Lutero, mas divergia dele na questão da eucaristia. Para o alemão, Cristo de fato estava presente nos elementos – o dogma da transubstanciação, até hoje observado pelo catolicismo; já Zwínglio considerava o sacramento como, apenas, um memorial de fé. Além disso, atacou atitudes que enfraqueciam a fibra moral da Igreja e logo passou a ser comparado a Lutero, embora não tivessem contato. As divergências com a Igreja Romana levaram tropas das regiões católicas a matarem-no.  

Todavia, um dos nomes mais expressivos depois de Lutero é, sem dúvida, João Calvino (1509-1564), o reformador genebrino. Este francês de Noyon estava de passagem por Genebra quando foi convencido por Guilherme Farel a não partir. Ele acedeu ao pedido e logo a cidade se tornou um importante centro de produção teológica e civismo, além de servir de refúgio para protestantes que fugiam da fúria romana. Calvino enfatizava a soberania de Deus como parte central de sua teologia e sistematizou-a, levando-a a aspectos sociais e ampliando, assim, o alcance da Reforma para muito além da religião. A predestinação não era o ponto de partida de seu pensamento, mas consequência do seu conceito de majestade de Deus. Sobre a ceia, diferiu de Lutero e Zwínglio ao afirmar que Cristo está presente espiritualmente nela. Calvino desenvolveu, ainda, o modelo de Igreja baseada em anciãos e presbíteros, no qual o povo é representado por leigos. Sua obra clássica é As institutas da religião cristã, escrita para o rei Francisco I, da França, em defesa dos protestantes daquele país, a quem considerava desrespeitados. 

PASSADO E PRESENTE 

O ambiente da Reforma produziu, ainda, movimentos, como o dos anabatistas, ou “rebatizadores”, cujo nome mais ilustre foi Menno Simons, líder dos menonitas, e outros líderes com maior ou menor importância, a exemplo de Filipe Melâncton (1497-1560), assistente de Lutero; Martinho Bucer (1491-1551), “o pacificador da Reforma”, que influenciou o puritanismo inglês; Olavo (1493-1552) e Lars Petri (1499-1573), que, influenciados por Lutero, levaram a Reforma à Suécia; Jacques Lefevre (1455-1536), sacerdote francês que proclamou a autoridade da Bíblia e publicou uma edição completa da obra em seu idioma. A Inglaterra teve João Colet (1467-1519), que rejeitou os excessos de alegorização da Bíblia, reiterando o seu valor literal. Já o alemão João Reuchlin (1455-1522), publicou a primeira gramática hebraica-cristã no ano de 1506, estabelecendo o estudo da língua judaica no Ocidente. E, por fim, Erasmo de Roterdã (1466-1536), o humanista, que entre suas obras como erudito está a importante edição do Novo Testamento em grego, lançada em 1516.  

Parafraseando o texto de Hebreus 12.1, tão grande nuvem de testemunhas só poderia deixar um legado inestimável à cristandade. Celebrar os 500 anos da Reforma Protestante é prestar tributo a vidas comprometidas com as preocupações e os esforços para transformar constantemente a Igreja que, no Brasil, tem uma de suas mais numerosas e vigorosas representações. Porém, o gigantismo que leva a Palavra de Deus aos quatro cantos do país é, também, marcado por enormes problemas. 

No entanto, não se pode sacralizar ou subestimar um período ou outro, as dificuldades do passado ou as do presente – o que importa é manter firme a disposição de pensar e repensar as questões que desafiam a Igreja em nosso tempo. Que sejamos, a presente geração, nomes a serem lembrados pelos cristãos do futuro, que herdarão o fruto do nosso trabalho no Senhor.  

MAGNO PAGANELLI, escritor e professor, é doutorando em História Social na Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie 

 

REFERÊNCIAS 

HINSON, E. Glenn Hinson; SIEPIERSKI, Paulo. Vozes do cristianismo primitivo: o Cristianismo como movimento, mas sem uniformidade nas perspectivas entre a instituição e as pessoas comuns, 2ª ed. rev. São Paulo: Arte Editorial, 2010; fora de catálogo. 

SUANA, Marta. História da Igreja – a trajetória do Cristianismo desde a sua fundação até nossos dias. IBAD: Pindamonhangaba, 2008. 

VANDERLINDE, Tarcísio. A guerra dos Camponeses: a mediação de Lutero em discussão. Artigo produzido no âmbito do Grupo de Pesquisa “Cultura, Fronteiras e Desenvolvimento Regional” (CNPq). S/l: s/d.